Eu costumo chamar as coisas que eu escrevo de "devaneios", pois são ideias que aparecem na minha cabeça, somem e quando eu menos espero elas estão de volta, até que eu passe para o papel. Enquanto não faço isso elas ficam na minha cabeça me incomodando nos momentos mais aleatórios.
Esse devaneio que trago hoje está na minha cabeça há anos. Na época de escola tínhamos as olimpíadas de língua portuguesa, onde todo ano precisávamos escrever uma cronica com uma temática específica, e a daquele ano era retratar algum fato histórico ou social através dos olhos de um idoso e para isso tínhamos de entrevistá-lo. Na época uma das poucas pessoas que se encaixava na idade solicitada nas regras era a avó de uma amiga, e então uma turma de sete ou oito pessoas foi até a sua casa, eu incluída. Hoje fico pensando como aquela senhora se sentiu contando sua vida para tantos pré-adolescentes enquanto eles a olhavam com papel e caneta na mão, replicando avidamente cada uma das suas palavras.
Naquele ano frustramos nossa professora, pois se tinha uma coisa que não devíamos fazer era começar o texto com "Sou fulana, tenho 65 anos..." entretanto 80% da turma chegava com sua cronica justamente com esse começo, incluindo eu. A professora pedia que refizéssemos e refazíamos. Mudávamos todo o texto mas a mesma introdução continuava. Não sei como não embranquecemos os cabelos da professora.
Apenas uns dois meses depois uma introdução inteiramente diferente me veio a mente, mas o assunto escolar tinha mudado, e as olimpíadas a muito terminado, então guardei aquela velha história na minha cabeça.
Com o passar dos anos fui conhecendo mais a vida passada da minha avó, fui conhecendo a história de mais pessoas idosas, com as quais conversava no ponto, ou no ônibus, ou na fila do supermercado. Aprendi que cada pessoa daquelas já foi jovem, com seus romances, suas inseguranças, seus amores, seus gostos. Que cada pessoa daquelas que conversei já correu, já brincou, já ralou o joelho. Aprendi também que todas elas gostam de falar sobre seu passado, mesmo que você fique calada apenas ouvindo. Eles só querem ser ouvidos, e descobri que eu tinha o dom de ouvi-los, e de fato me interessar e me perder dentro das suas histórias, como se eu estivesse lá, olhando tudo por seus olhos.
Depois de anos o devaneio finalmente tomou uma forma final, que é a que irei escrever a seguir. Não sei se minha professora vai lê-la e sentir que finalmente aquela introdução foi superada, ou se vai sentir que eu escapei completamente das regras, afinal, o devaneio não conta mais a historia daquela senhora, mas de alguém criado em minha mente a partir de varias e varias vozes sussurradas nos meus ouvidos. Talvez um dia eu mande o link para ela, ou ela encontre por acaso. Espero ter me redimido com você.
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Hoje eu me sento em frente a televisão e vejo em noticias mulheres médicas, dentistas, psicologas, repórteres, vejo minhas netas mais novas chegarem da escola com livros nas mãos e sorrisos no rosto, as mais velhas chegando com roupas formais e pastas debaixo do braço, tratando essas coisas como algo normal e corriqueiro, e duas coisas me passam pela cabeça: A primeira é admiração pela coragem, pois eu mesma não teria essa força de vontade que elas tem, e a segunda é que elas não sabem a sorte que tem.
Nasci quando não existia rua calçada, eletricidade era um sussurro distante das grandes capitais, as noites eram iluminadas por candeeiros e pela própria lua. Aguá da cacimba, fruta direto do pé. A infância era simples, mas feliz.
Porém como menina a minha diversão acabou mais cedo que dos meus irmãos, desde cedo eu tinha de ajudar minha mãe a cuidar da casa, e apenas quando não tivesse mais nada para fazer dentro de casa eu poderia me juntar a eles.
Cada ano que se passava cada um dos meus irmãos passavam a ir para a escola, e quando chegou minha vez, em vez do caderno fino e do lápis que meus irmãos ganharam, meu pai colocou em minha frente um papel pardo e meu registro de nascimento, apontou para algumas letras ilegíveis para mim e me falou que aquele era meu nome, e era para eu aprender a escrever igual. Naquela época o pai era uma figura que as crianças amavam, mas temiam, então questionar qualquer coisa era algo que tremíamos ao fazer, sem saber se ele iria rir, se levaríamos uma bronca ou um tapa na bunda, e foi tremendo até a unha do pé que o perguntei se eu não iria a escola como meus outros irmãos. Nem riso nem tapa na bunda, meu pai falou naquele jeito bronco dele (anos depois entendi que não era "brabeza", mas sim o jeito dele mesmo) que filha dele não ia aprender nem a ler nem a escrever para não mandar carta para namorado, mulher não tinha pra que aprender a escrever, só escrever o nome já estava bom. Hoje sei que isso é inaceitável, mas na época tudo que eu podia fazer era abaixar a cabeça e aceitar.
Foi aos treze anos, indo pra missa com minha família que o conheci, era um rapaz bem... Qual a palavra que os jovens hoje usam para formoso? Parecia ser um pouco mais velho que eu, e durante toda a missa eu sentia seu olhar em cima de mim, e pelo visto meu pai também notou. Ao fim da missa ele veio apertar a minha mão e se apresentar, e quando meu pai olhou bravo para ele, ele sustentou o olhar e se apresentou respeitosamente para meu pai também. Admito que aquilo me deixou impressionada.
Então por mais três domingos ao fim da missa ele vinha me cumprimentar e cumprimentar o resto da minha família, sempre se despedindo de mim com um beijo na mão. Me dava um calorzinho sempre que isso acontecia. Não sei como ele descobriu onde eu morava, e em uma tarde chegou em minha casa a cavalo. Sentamos em frente a minha casa e conversamos por um tempo. Isso aconteceu quase todos os dias, sempre sob o olhar atento do meu pai durante uma semana, e nessa semana descobri que ele tinha mais dois irmãos, e para minha surpresa ele não tinha quinze ou dezesseis como pensei a principio, mas sim já estava perto de fazer vinte. Então quando eu menos esperava ele falou que tinha pedido ao meu pai para namorar comigo e ele deixou. Minha surpresa foi grande pois ele não tinha falado antes comigo, perguntado se eu queria namorar com ele. Eu sabia que gostava da companhia dele mas não se gostava dele naquele sentido, mas se meu pai já tinha deixado, se eu recusasse meu pai ficaria bravo comigo. Anos depois minha mãe falou que meu pai o pressionou contra a parede, pois não queria que sua filha ficasse falada. E era essa preocupação com que os outros iam falar que dentro de um único mês eu me vi namorando, depois noiva, e por fim casada com aquele rapaz.
Quando falo para as pessoas que casei com treze anos, com um homem de quase vinte as pessoas ficam horrorizadas, mas pelo menos em defesa dele, ele poderia ter dormido comigo na primeira noite de casados, mas não dormiu. Eu era tão criança que quando ele chegava em casa depois de trabalhar a casa estava arrumada, comida na mesa e eu estava sentada na sala brincando com minha boneca. Durante dois anos inteiros de casados compartilhávamos a cama, mas ele nunca tocou em mim, não até pelo menos minhas regras descerem, e então no mesmo mês me tornei "mocinha" e depois "mulher".
Não demorou nem três meses para eu engravidar do primeiro filho, mas provavelmente pela minha idade junto com a falta de acesso a medicina meu primeiro filho não vingou, nem o segundo, nem o terceiro. Apenas aos dezenove, meu quarto filho finalmente vingou. Depois dele vieram mais sete, três meninas e cinco meninos. Minhas filhas criei de um jeito um pouco diferente do que fui criada, as permiti ir pra escola (meu marido não tinha a cabeça tão fechada quanto meu pai) mas sempre as colocava para ajudar em casa, nunca os meninos, pois sempre cresci ouvindo que arrumar casa era função das mulheres. A vigilância em cima delas eram dobradas, a ordem dada aos meninos era que sempre as vigiassem, e nos contasse imediatamente se elas conversassem com algum menino. Uma das minhas filhas seguiu meus passos: casou, teve muitos filhos e se tornou uma dona de casa, já as outras duas abriram o próprio comércio que com o passar do tempo foi crescendo, se tornando o maior mercado da cidade, depois espalhando unidades por todo o estado. Vi cada passo que elas deram, cada luta, mais de uma vez elas chegavam transtornadas porque ao chegar em uma reunião para expandir os negócios foram confundidas com secretarias ou esposas dos proprietários, quando elas eram as proprietárias. Meus filhos por terem mais liberdade também conseguiram seus empregos, exceto por um que cresceu extremamente dependente a nós, e hoje causa dor de cabeça, sempre se metendo em confusão e incapaz de arranjar um emprego.
Algumas coisas que eram comuns para mim são completamente antiquadas para minhas netas, outras que são normais para elas são absurdas para mim, mas não reclamo, sei que para as minhas netas eu sou a representação mais clara de um Mundo Velho, mais simples porém antiquado e fechado para as mulheres, e elas de um Mundo Novo, onde tudo é corrido, mas uma mulher pode correr atrás do que ela quer ser. Daqui a anos elas vão se tornar a representação de um Mundo Velho, e suas netas a representação de um Mundo Novo. Só espero que ele continue avançando, e que não regrida ao ponto que uma mulher não pode ter acesso a educação.
Esse devaneio que trago hoje está na minha cabeça há anos. Na época de escola tínhamos as olimpíadas de língua portuguesa, onde todo ano precisávamos escrever uma cronica com uma temática específica, e a daquele ano era retratar algum fato histórico ou social através dos olhos de um idoso e para isso tínhamos de entrevistá-lo. Na época uma das poucas pessoas que se encaixava na idade solicitada nas regras era a avó de uma amiga, e então uma turma de sete ou oito pessoas foi até a sua casa, eu incluída. Hoje fico pensando como aquela senhora se sentiu contando sua vida para tantos pré-adolescentes enquanto eles a olhavam com papel e caneta na mão, replicando avidamente cada uma das suas palavras.
Naquele ano frustramos nossa professora, pois se tinha uma coisa que não devíamos fazer era começar o texto com "Sou fulana, tenho 65 anos..." entretanto 80% da turma chegava com sua cronica justamente com esse começo, incluindo eu. A professora pedia que refizéssemos e refazíamos. Mudávamos todo o texto mas a mesma introdução continuava. Não sei como não embranquecemos os cabelos da professora.
Apenas uns dois meses depois uma introdução inteiramente diferente me veio a mente, mas o assunto escolar tinha mudado, e as olimpíadas a muito terminado, então guardei aquela velha história na minha cabeça.
Com o passar dos anos fui conhecendo mais a vida passada da minha avó, fui conhecendo a história de mais pessoas idosas, com as quais conversava no ponto, ou no ônibus, ou na fila do supermercado. Aprendi que cada pessoa daquelas já foi jovem, com seus romances, suas inseguranças, seus amores, seus gostos. Que cada pessoa daquelas que conversei já correu, já brincou, já ralou o joelho. Aprendi também que todas elas gostam de falar sobre seu passado, mesmo que você fique calada apenas ouvindo. Eles só querem ser ouvidos, e descobri que eu tinha o dom de ouvi-los, e de fato me interessar e me perder dentro das suas histórias, como se eu estivesse lá, olhando tudo por seus olhos.
Depois de anos o devaneio finalmente tomou uma forma final, que é a que irei escrever a seguir. Não sei se minha professora vai lê-la e sentir que finalmente aquela introdução foi superada, ou se vai sentir que eu escapei completamente das regras, afinal, o devaneio não conta mais a historia daquela senhora, mas de alguém criado em minha mente a partir de varias e varias vozes sussurradas nos meus ouvidos. Talvez um dia eu mande o link para ela, ou ela encontre por acaso. Espero ter me redimido com você.
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Hoje eu me sento em frente a televisão e vejo em noticias mulheres médicas, dentistas, psicologas, repórteres, vejo minhas netas mais novas chegarem da escola com livros nas mãos e sorrisos no rosto, as mais velhas chegando com roupas formais e pastas debaixo do braço, tratando essas coisas como algo normal e corriqueiro, e duas coisas me passam pela cabeça: A primeira é admiração pela coragem, pois eu mesma não teria essa força de vontade que elas tem, e a segunda é que elas não sabem a sorte que tem.
Nasci quando não existia rua calçada, eletricidade era um sussurro distante das grandes capitais, as noites eram iluminadas por candeeiros e pela própria lua. Aguá da cacimba, fruta direto do pé. A infância era simples, mas feliz.
Porém como menina a minha diversão acabou mais cedo que dos meus irmãos, desde cedo eu tinha de ajudar minha mãe a cuidar da casa, e apenas quando não tivesse mais nada para fazer dentro de casa eu poderia me juntar a eles.
Cada ano que se passava cada um dos meus irmãos passavam a ir para a escola, e quando chegou minha vez, em vez do caderno fino e do lápis que meus irmãos ganharam, meu pai colocou em minha frente um papel pardo e meu registro de nascimento, apontou para algumas letras ilegíveis para mim e me falou que aquele era meu nome, e era para eu aprender a escrever igual. Naquela época o pai era uma figura que as crianças amavam, mas temiam, então questionar qualquer coisa era algo que tremíamos ao fazer, sem saber se ele iria rir, se levaríamos uma bronca ou um tapa na bunda, e foi tremendo até a unha do pé que o perguntei se eu não iria a escola como meus outros irmãos. Nem riso nem tapa na bunda, meu pai falou naquele jeito bronco dele (anos depois entendi que não era "brabeza", mas sim o jeito dele mesmo) que filha dele não ia aprender nem a ler nem a escrever para não mandar carta para namorado, mulher não tinha pra que aprender a escrever, só escrever o nome já estava bom. Hoje sei que isso é inaceitável, mas na época tudo que eu podia fazer era abaixar a cabeça e aceitar.
Foi aos treze anos, indo pra missa com minha família que o conheci, era um rapaz bem... Qual a palavra que os jovens hoje usam para formoso? Parecia ser um pouco mais velho que eu, e durante toda a missa eu sentia seu olhar em cima de mim, e pelo visto meu pai também notou. Ao fim da missa ele veio apertar a minha mão e se apresentar, e quando meu pai olhou bravo para ele, ele sustentou o olhar e se apresentou respeitosamente para meu pai também. Admito que aquilo me deixou impressionada.
Então por mais três domingos ao fim da missa ele vinha me cumprimentar e cumprimentar o resto da minha família, sempre se despedindo de mim com um beijo na mão. Me dava um calorzinho sempre que isso acontecia. Não sei como ele descobriu onde eu morava, e em uma tarde chegou em minha casa a cavalo. Sentamos em frente a minha casa e conversamos por um tempo. Isso aconteceu quase todos os dias, sempre sob o olhar atento do meu pai durante uma semana, e nessa semana descobri que ele tinha mais dois irmãos, e para minha surpresa ele não tinha quinze ou dezesseis como pensei a principio, mas sim já estava perto de fazer vinte. Então quando eu menos esperava ele falou que tinha pedido ao meu pai para namorar comigo e ele deixou. Minha surpresa foi grande pois ele não tinha falado antes comigo, perguntado se eu queria namorar com ele. Eu sabia que gostava da companhia dele mas não se gostava dele naquele sentido, mas se meu pai já tinha deixado, se eu recusasse meu pai ficaria bravo comigo. Anos depois minha mãe falou que meu pai o pressionou contra a parede, pois não queria que sua filha ficasse falada. E era essa preocupação com que os outros iam falar que dentro de um único mês eu me vi namorando, depois noiva, e por fim casada com aquele rapaz.
Quando falo para as pessoas que casei com treze anos, com um homem de quase vinte as pessoas ficam horrorizadas, mas pelo menos em defesa dele, ele poderia ter dormido comigo na primeira noite de casados, mas não dormiu. Eu era tão criança que quando ele chegava em casa depois de trabalhar a casa estava arrumada, comida na mesa e eu estava sentada na sala brincando com minha boneca. Durante dois anos inteiros de casados compartilhávamos a cama, mas ele nunca tocou em mim, não até pelo menos minhas regras descerem, e então no mesmo mês me tornei "mocinha" e depois "mulher".
Não demorou nem três meses para eu engravidar do primeiro filho, mas provavelmente pela minha idade junto com a falta de acesso a medicina meu primeiro filho não vingou, nem o segundo, nem o terceiro. Apenas aos dezenove, meu quarto filho finalmente vingou. Depois dele vieram mais sete, três meninas e cinco meninos. Minhas filhas criei de um jeito um pouco diferente do que fui criada, as permiti ir pra escola (meu marido não tinha a cabeça tão fechada quanto meu pai) mas sempre as colocava para ajudar em casa, nunca os meninos, pois sempre cresci ouvindo que arrumar casa era função das mulheres. A vigilância em cima delas eram dobradas, a ordem dada aos meninos era que sempre as vigiassem, e nos contasse imediatamente se elas conversassem com algum menino. Uma das minhas filhas seguiu meus passos: casou, teve muitos filhos e se tornou uma dona de casa, já as outras duas abriram o próprio comércio que com o passar do tempo foi crescendo, se tornando o maior mercado da cidade, depois espalhando unidades por todo o estado. Vi cada passo que elas deram, cada luta, mais de uma vez elas chegavam transtornadas porque ao chegar em uma reunião para expandir os negócios foram confundidas com secretarias ou esposas dos proprietários, quando elas eram as proprietárias. Meus filhos por terem mais liberdade também conseguiram seus empregos, exceto por um que cresceu extremamente dependente a nós, e hoje causa dor de cabeça, sempre se metendo em confusão e incapaz de arranjar um emprego.
Algumas coisas que eram comuns para mim são completamente antiquadas para minhas netas, outras que são normais para elas são absurdas para mim, mas não reclamo, sei que para as minhas netas eu sou a representação mais clara de um Mundo Velho, mais simples porém antiquado e fechado para as mulheres, e elas de um Mundo Novo, onde tudo é corrido, mas uma mulher pode correr atrás do que ela quer ser. Daqui a anos elas vão se tornar a representação de um Mundo Velho, e suas netas a representação de um Mundo Novo. Só espero que ele continue avançando, e que não regrida ao ponto que uma mulher não pode ter acesso a educação.

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